Watchmen, Espectral e a Cultura do estupro

0. Watchmen - Nº 02 (amigos ausentes)  Em meio a toda repercussão que o caso do estupro teve, eu realmente pensei que não fosse necessário discutir esse tema no blog. No entanto, percebi que não podemos ser indiferentes em relação as pessoas e se teletransportar para Marte como o Dr. Manhattan. Desse modo, escolhi uma das obras do Alan Moore que nos mostra o tema de forma direta para a partir disso discutirmos a existência da cultura do estupro e de que forma ela contribui para a persistência da violência contra mulher.

 A menos que você esteja lendo esse texto num futuro bem distante ou estivesse em Marte, não está ciente do caso de uma garota de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Essa infeliz história gerou um grande efeito, abrindo assim uma brecha para a discussão sobre persistência desse problema.
O fato de algumas pessoas culparem a vítima pelo ocorrido negando a violência sofrida por ela nos mostra que estamos vivendo em uma cultura do estupro. Mas o que seria essa “Cultura do Estupro”?
A cultura do estupro parte do principio de que são passados de geração para geração valores a fim de justificar a violência contra a mulher. Em vista disso, é dado ao homem que violenta um estereótipo de “monstro e doente”, responsabilizando a vítima por ter o “provocado” e relativizando o conceito de abuso.
Veja abaixo o caso da Espectral como exemplo:

2. Watchmen - Nº 02 (amigos ausentes)
Sally e o babacão do Comediante. [Watchmen 2 – Amigos ausentes]
 Ao se trocar, Sally é abordada pelo Comediante que utiliza argumentos como “(…)Deve ter uma boa razão pra usar uma roupinha assim, né?”, para justificar o fato de querer estuprá-la. Além disso, o mesmo sugere que o “Não” dela signifique “Sim” a agredindo quando a mesma tenta se defender. NÃO é NÃO, e sexo sem consentimento É ESTUPRO.
Trazendo para a nossa realidade há quem culpe a vítima pela roupa, local, horário, ou desconsidere o estupro pelo fato de serem companheiros. Entretanto, atitudes como essas acabam tirando o foco do agressor fazendo com que até o mesmo não se enxergue como tal, contribuindo assim para a perpetuação desse ato. Desse modo, a dominação masculina ganha terreno e este encara a mulher como objeto que deve saciar seus desejos.
Embora a sociedade tenha repulsa a violentadores, os mesmos se contradizem com o uso de definições como “mulherzinha” para conceituar o estuprador que sofre o mesmo tipo de agressão, fortalecendo assim o ciclo violento contra a mulher. Além disso, a face de “monstro” dada aos violentadores, não se mantém visto que grande parte dos casos não são cometidos por homens que sofrem algum distúrbio mental, mas sim pessoas “normais”.
A sociedade repudia o estuprador estereotipado e não o marido que não sabe respeitar o “Não” da mulher e força o coito, ou o faz enquanto ela dorme, ou então quando despidos a mulher muda de ideia e diz que NÃO quer mais. Nesses últimos casos, o “Não” é desconsiderado e a mulher é colocada como culpada.
As pessoas são corruptas e repudiam a corrupção. Do mesmo modo que tentam justificar estupro e repudiam o estuprador.

3. Watchmen - Nº 02 (amigos ausentes)
Comediante na tentativa de estuprar Sally, quando Justiça chega impedindo

Voltando ao caso da Sally, embora um dos companheiros de equipe tenha chegado na hora impedindo que o estupro fosse efetuado, a mesma ficou física e psicologicamente abalada. Sally foi persuadida a não dar queixa do Comediante pelo bem da equipe, e o agressor saiu ileso.
Na vida real isso não é diferente, existem muitos casos não relatados justamente pela banalização do ato. A mulher deixa seus direitos de lado para não prejudicar a vida do homem que destruiu a sua.
A impunidade acontece a partir do momento em que a vítima tem medo de denunciar, pois é questionada se “provocou” e muitas vezes é colocada como culpada. A impunidade acontece quando o violentador não tem vergonha de gravar e divulgar o ato. A impunidade acontece quando só queremos corrigir a consequência, enquanto cada vez mais geramos pessoas com o mesmo pensamento das que culpam a vítima e que banalizam a ponto do agressor não ter vergonha de expor o ato.

1. Watchmen - Nº 02 (amigos ausentes)
Sally e sua filha Laurie. [Watchmen 2 – Amigos ausentes]
  Outros nuances da cultura do estupro que podemos encontrar no caso da Espectral, são os valores expressos no fato de Sally se sentir “lisonjeada” por terem feito um gibi pornô sobre ela. Dessa forma, nos mostra uma outra realidade que a mulher encara: ter o assédio transformado em elogio.
Estupro se trata de dominação, de achar que o corpo do outro deve satisfazer seus prazeres. Logo, é precedido de outros tipos de violências. A objetificação e hipersexualização do corpo feminino por meio de diversas mídias, contribui diretamente para a permanência dessa violência.
Embora apontem pena de morte, castração química e redução da maioridade penal como alternativas, elas não são uma solução efetiva. Logo a castração química, por exemplo, não se torna uma medida eficaz já que o estupro não se trata de sexo e sim subjugação. Além disso, vivemos numa sociedade desigual onde essas medidas só iriam ser empregadas na população pobre e negra que só precisam de sua condição e cor da pele para usarem como “justificativa” .
Todas essas questões só nos fazem tirar o foco do fator principal que é a nossa formação, exceto quem possua algum distúrbio ou qualquer coisa que o deixe no estado de alguém fora da sociedade, ninguém nasce assassino ou estuprador, a condição que vivemos exerce muita influência sim! Afinal, não adianta focar apenas na consequência enquanto diariamente são formadas pessoas com mentalidades dominadoras.
Todos nós somos responsáveis pelo o que acontece aqui, pois vivemos em conjunto, fazemos parte do mesmo lugar. Vamos aprender a largar a indiferença de lado e ter mais empatia. Vítima é sempre vítima, ninguém quer, tão pouco merece ser estuprado.
Por fim, quero deixar um recado. Estupro é um crime hediondo, a vítima tem sua autoestima completamente abalada, sente medo, culpa, vergonha, resultando em trauma, doenças e propensão ao suicídio, um ato tão cruel como esse não deve ser romantizado. Não faça piadas, julgue ou reproduza vídeos e fotos dessa violência. O que deve entrar em pauta é a fonte da persistência desse problema e não a exposição da vítima.

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2 thoughts on “Watchmen, Espectral e a Cultura do estupro

  1. samiraoliveira3

    Eu não conheço muito de quadrinhos mas achei incrível você usar eles para explicar tudo isso. Ainda não fiz um post sobre isso porquê bom, não tive coragem ainda. Na época fiquei bem mal tive um ataque de panico na noite do acontecido – so pq fiquei dentro do carro sozinha em frente ao trabalho do meu sogro. Então acho que preciso esperar para falar sobre isso. Mas acho que o pior é em reduzir o homem para “monstro e doente” como voce disse, ele tem que ser visto como homem que acha certo dominar e subjugar a mulher, e torná-la um objeto. Primeiro isso precisa grudar na cabeça das pessoas. Mas infelizmente acho que ainda vai demorar muito 😦
    dezoitoemponto.com

    Curtido por 1 pessoa

    • Elidiana Andrade

      Obrigada! Decidi usar para unir esses dois temas que venho querendo abordar no blog e deixar mais didático também. Eu te entendo, de verdade, diariamente somos expostas a situações que nos geram medo e acaba cabendo a nós termos que ficar sempre na defensiva, quando o correto seria os homens nos respeitar para que isso não fosse necessário. Sempre ando desconfiada na rua, meus amigos sabem bem disso, além de ser extremamente ansiosa também. Associar os abusadores a algum transtorno mental só faz com que esse problema continue. Por mais que isso leve tempo não podemos deixar de lutar, pois só assim vamos garantir nossos direitos. Desejo de coração que fique melhor e se sinta confortável para escrever também, pois esse tema desse ser abordado cada vez mais. Beijos!

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